sábado, 2 de julho de 2016

Pequenos delírios - Raimundo



Raimundo era um cara normal, vestia roupas normas, usava roupas normais, comia comidas normais, seus tênis era um all star normal e surrado e suas notas eram medianas, aliás, o que ninguém sabia é que Raimundo se esforçava o tempo todo para ser alguém mediano e normal.

Mas naquele dia, uma coisa havia fugido do seu controle, sua nota na prova de Física havia sido oito e meio. Aparentemente ele havia se distraído e esqueceu de responder errado uma questão que valia dois pontos e era complicada.

Ninguém na sala havia acertado a questão.

Nem o professor achou que alguém fosse acertar a questão.

Agora ele estava com problemas, havia sido chamado para na sala da Direção para conversar. Achavam que ele havia colado.

Um outro detalhe importante sobre o jovem é que ele podia errar as questões da prova e se esforçar para estar na médica, mas era totalmente incapaz de mentir deliberadamente quando confrontado diretamente sobre alguma coisa e as perguntas que talvez lhe fizessem o estavam deixando preocupado.

E se lhe perguntassem o nome de seus pais? A sua data de nascimento? O seu país de origem? Seu verdadeiro QI? Seus poderes especiais? O que ele deveria dizer? Havia como sair vivo dali? Estava tudo acabado. Naquele momento ele começava a traçar rotas de fuga da sala da direção e lembrar se dentre as poções mágicas de sua mochila, alguma lhe ajudaria a fingir que estava passando mal, mas não conseguia se lembrar de nada.

A maçaneta fez barulha e lá devia estar ela, a encarnação do mal em pessoa, a metade de um devorador de mundos ficaria frente a frente com ele e poderia lhe perguntar o que quisesse.

A missão havia falhado.

Só esperava permanecer vivo o suficiente para reportar.

Raimundo suava frio. A diretora parecia calma e tranquila no seu terninho cinza, notadamente caro, sapatos loubotin, com saltos finos, tamanho 15. Ela sentou-se confortável em frente ao jovem e lhe fez a primeira pergunta.

- Você colou?

- Não. – Sua resposta poderia parecer seca, mas ele estava em pânico.

A mulher ajeitou-se em sua cadeira e fez a segunda pergunta.

- Pode refazer a questão enquanto assisto?

- Posso.

Ela lhe entregou uma folha de papel, ele pegou um lápis em sua mochila e meia hora depois havia terminado. Entregou a folha à diretora, que sorriu.

- Com, Sr. Raimundo, fico feliz que tenha conseguido. Seria uma pena se tivesse colado, pois teríamos que lhe expulsar não só da escola, como também de nossa cidade. Nosso regulamento é muito rigoroso em relação a falsários e impostores.

- Eu sei.

- Sendo assim, pode voltar às suas atividades.

- Obrigado.

Raimundo saiu. Mayumi sorria acreditando que tinha encontrado outro talento brilhante entre os prodígios. Raimundo, ou melhor, Merlin, respirava aliviado por sua inimiga não ter percebido que o adolescente era um mago milenar.

Ele agora só precisava tomar mais cuidado.

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